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12/01/2015

Peça do mês de Janeiro

O Museu Nacional de Arqueologia (MNA) possui um acervo de muitos milhares, na verdade centenas de milhares, de objetos. Provêm eles de intervenções arqueológicas programadas ou de achados fortuitos, tendo sido incorporados por iniciativa do próprio Museu ou por depósito ou por doação de investigadores e colecionadores.

Todos os períodos cronológicos e culturais, e também todos os tipos de peças, desde a mais remota Pré-História até épocas recentes, neste caso com relevo para as peças etnográficas, estão representados no MNA. Às coleções portuguesas acrescentam-se as estrangeiras, igualmente de períodos e regiões muito diversificadas.

O MNA é ainda o museu português que possui no seu acervo a maior quantidade de peças classificadas como “tesouros nacionais”.

Existe, pois, sempre motivo de descoberta nas coleções do Museu Nacional de Arqueologia e é esse o sentido da evocação que fazemos, em cada mês que passa.


PEÇA DO MÊS COMENTADA
O TOURO DE CINCO REIS 8
Apresentado por Ana Margarida Arruda
17 de Janeiro de  2015, às 15h
  



O touro de Cinco Reis 8 é proveniente de uma necrópole escavada na área de Beja, no contexto das intervenções de minimização de impactes sobre o património, promovidas pela EDIA (Empresa de Desenvolvimento e Infra-estruturas do Alqueva) no âmbito do sistema global de rega.

A necrópole, escavada por Rosa Salvador Mateos e José António Pereira da empresa NOVAARQUEOLOGIA (a quem agradeço, desde já, toda a colaboração), é da Idade do Ferro, sendo datada do século VII-VI a.n.e. Insere-se numa vasta rede de espaços funerários com características particulares e individualizantes no quadro da Idade do Ferro do sudoeste peninsular.
Trata-se de uma peça cerâmica, moldada à mão, que representa um bovino, ajoelhado, de cabeça frontal e focinho de grande dimensão. A boca está entreaberta e a cauda, destacada do corpo, enrola-se, rematando sobre o dorso com incisões que desenham um semicírculo.

O touro da necrópole de Cinco Reis 8 remete inevitavelmente para um universo religiosos e/ou ritual, situação que não advém exclusivamente do contexto em que foi recuperado. Com efeito, os touros, presentes, de forma muito expressiva, na iconografia da Idade do Ferro peninsular (bem como aliás na de toda bacia do Mediterrâneo e no próximo oriente), representam não só prosperidade doméstica e riqueza agrícola, mas também têm um profundo significado religioso, podendo ser conectados com divindades, concretamente com Baal. Porém, é difícil reconhecer em todas as representações de touros imagens de culto, fazendo mais sentido, em algumas circunstâncias, relacioná-las com atividades de tipo sacrificial.

O touro de Cinco Reis 8 apresenta características que o diferenciam da maioria dos seus congéneres metálicos, interpretados como tampas de thimiateria, como, no atual território português, são os casos de Mourão e Safara, por exemplo. Enquanto estes se encontram em posição de absoluto repouso, em atitude pacífica, deitados sobre as patas, cabeça inclinada lateralmente, com a boca aberta e a língua pendente, o da necrópole alentejana apresenta-se de joelhos, de cabeça para a frente, não evidenciando a mansidão dos anteriores. Por outro lado é consideravelmente musculado e o morrilho é muito pronunciado. A interpretação iconológica deve, portanto, ser distinta, uma vez que a diversidade de matéria-prima não pode ser responsável pela variedade de atitudes. Ambas as posições são conhecidas no Oriente, onde existem quer bovídeos reclinados (muito menos numerosos), quer a que se reconhece no de Cinco Reis 8 (em número muito mais significativo), podendo, também aí, ser lidos de forma diferenciada no que se refere ao significado.

Museu Nacional de Arqueologia. Entrada Livre

15/12/2014

Peça do mês de Dezembro

O Museu Nacional de Arqueologia (MNA) possui um acervo de muitos milhares, na verdade centenas de milhares, de objectos. Provêm eles de intervenções arqueológicas programadas ou de achados fortuitos, tendo sido incorporados por iniciativa do próprio Museu ou por depósito ou por doação de investigadores e coleccionadores.

Todos os períodos cronológicos e culturais, e também todos os tipos de peças, desde a mais remota Pré-História até épocas recentes, neste caso com relevo para as peças etnográficas, estão representados no MNA. Às colecções portuguesas acrescentam-se as estrangeiras, igualmente de períodos e regiões muito diversificadas.

O MNA é ainda o museu português que possui no seu acervo a maior quantidade de peças classificadas como “tesouros nacionais”.

Existe, pois, sempre motivo de descoberta nas colecções do Museu Nacional de Arqueologia e é esse o sentido da evocação que fazemos, em cada mês que passa.   

PEÇA DO MÊS COMENTADA

A Maquineta "Adoração dos Pastores" - Nº Invº 7 286
Presépio atribuído a Machado de Castro

A apresentar por Alexandre Pais, Elsa Murta e Joana Campelo

20 de Dezembro de 2014, ás 15h


O presépio que integra a colecção do Museu Nacional de Arqueologia é uma peça fundamental para estabelecer uma das vias destes móveis após o ocaso do brilhante tempo barroco, em que pontificou, entre outros, o génio criador de António Ferreira e Joaquim Machado de Castro. A erudição e lógica das imagens escultóricas que marcam presença no remanescente dos presépios setecentistas, por vezes herdeiras de sentidos ainda ligados a tradições medievais, estavam condenadas numa sociedade em convulsão e que tendia para uma crescente laicização de que a extinção das Ordens religiosas é uma das consequências mais evidentes. Desaparecida uma das clientelas essenciais do presépio, móvel litúrgico sazonalmente exposto para contemplação piedosa e celebração do Nascimento de Jesus, a sua prática permaneceu na tradição dos costumes populares e nas figuras feitas a partir de moldes, vendidas em feiras e lojas por todo o país. Algumas olarias começaram a investir neste tipo de produção, sobressaindo em Lisboa a que se localizava na Calçada da Bica Pequena, de onde provêem alguns dos elementos presentes no presépio do Museu de Arqueologia. No entanto, ao contrário do que sucedeu com grande parte das peças com origem em unidades de produção mais populares, entretanto perdidas na voragem do tempo, estas encontraram abrigo numa curiosíssima maquineta em forma de castelo muralhado (provavelmente reutilizada a partir de outra função), que dota o conjunto de uma inesperada evocação de casa de bonecas. A estética subjacente ao todo que integra esta invulgar peça remete para uma obra do último quartel do século XIX. Adaptada a um gosto mais aburguesado do que aquele que caracterizara a clientela que outrora observara os presépios do “período de ouro”, demonstrando a persistência de manifestações que ultrapassam o próprio sentido religioso que se encontra na sua génese e ganham o carácter de um símbolo, neste caso o da unidade familiar como base da estrutura social.

Museu Nacional de Arqueologia. Entrada Livre.



13/10/2014

Peça do mês de Outubro

O Museu Nacional de Arqueologia (MNA) possui um acervo de muitos milhares, na verdade centenas de milhares de objectos. Provêm eles de intervenções arqueológicas programadas ou de achados fortuitos, tendo sido incorporados por iniciativa do próprio Museu ou por depósito ou por doação de investigadores e coleccionadores.

Todos os períodos cronológicos e culturais, e também todos os tipos de peças, desde a mais remota Pré-História até épocas mais recentes, estão representados no MNA. Às colecções portuguesas acrescentam-se as estrangeiras, igualmente de períodos e regiões muito diversificadas.

O MNA é ainda o museu português que possui no seu acervo a maior quantidade de peças classificadas como "tesouros nacionais".
Existe, pois, sempre motivo de descoberta nas colecções do Museu Nacional de Arqueologia e é esse o sentido da evocação que fazemos, em cada mês que passa.

PEÇA DO MÊS COMENTADA
Forma de açúcar Nºs Invº DGPC.CNANS.RAVB 81.E3; RAVB 93/01A
Ria de Aveiro B/C

A apresentar por André Teixeira (CHAM/UNL), em 18 de Outubro de 2014 às 15h




O açúcar foi o grande motor da expansão portuguesa no Oceano Atlântico entre os séculos XV e XVII. Experimentado com sucesso nos arquipélagos da Madeira e de São Tomé e Príncipe, cultivado também nos Açores e em Cabo Verde, adquiriu um significado particularmente expressivo no imenso Brasil. Transportado a partir do Mediterrâneo para estes espaços revelados pelos Descobrimentos, foi o grande impulsionador do povoamento daqueles territórios, já que o seu cultivo e exportação para a Europa assegurava lucros elevados. Outros povos europeus seguiram os portugueses na plantação da cana sacarina, desde logo os vizinhos ibéricos, tanto nas Canárias, como nas Antilhas. Enfim, a generalização do açúcar nos mercados europeus acarretou profundas mudanças nos hábitos de consumo alimentar.

O estudo desta temática tem-se baseado essencialmente nos testemunhos escritos. No entanto, mais recentemente, ganhou interesse a investigação arqueológica de antigos sítios de engenho do açúcar, unidades produtivas que associavam o cultivo, a transformação e a preparação para a comercialização. Neste âmbito surgiram as denominadas formas de açúcar, recipientes cerâmicos essenciais no processo de purga deste produto, reconhecidas neste tipo de contextos. Igualmente relevante foi a sua descoberta no território continental português, em locais que parecem ter fornecido os centros açucareiros do Atlântico deste tipo de produção oleira. É um destes casos em que se enquadra a peça em análise, ponto de partida para esta viagem pela arqueologia da expansão portuguesa no Atlântico.


Museu Nacional de Arqueologia - Sala Bustorff. Entrada Livre

16/09/2014

Peça do mês de Setembro

O Museu Nacional de Arqueologia (MNA) possui um acervo de muitos milhares, na verdade centenas de milhares de objectos. Provêm eles de intervenções arqueológicas programadas ou de achados fortuitos, tendo sido incorporados por iniciativa do próprio Museu ou por depósito ou por doação de investigadores e coleccionadores.
Todos os períodos cronológicos e culturais, e também todos os tipos de peças, desde a mais remota Pré-História até épocas recentes, neste caso com relevo para as peças etnográficas, estão representadas no MNA. Às colecções portuguesas acrescentam-se as estrangeiras, igualmente de períodos e regiões muito diversificadas.
O MNA é ainda o museu português que possui no seu acervo a maior quantidade de peças classificadas como "tesouros nacionais".
Existe, pois, sempre motivo de descoberta nas colecções do Museu Nacional de Arqueologia e é esse o sentido da evocação que fazemos, em cada mês que passa.


PEÇA DO MÊS COMENTADA
Machado Mirense, Nº Invº 2005.180.1
Vale da Telha, Alzejur

A apresentar por Luís Raposo, em 20 de Setembro de 2014, às 15h



O Machado Mirense é uma das peças mais características, e também mais enigmáticas, da Pré-História Portuguesa. Possui uma distribuição geográfica limitada, já que se encontra somente no litoral, entre as embocaduras dos rios Sado e Guadiana, com forte concentração junto ao estuário do Rio Mira - e daí o seu nome. Pensou-se outrora que poderia datar do Paleolítico, sendo uma peça para usar na mão, tal como o biface ou o machado dessas épocas. Por isso se chama "empunhadura" ao seu cabo e "cabeça" à sua parte activa. Mas sabemos hoje que data de épocas mais recentes, podendo estender-se desde o Mesolítico até talvez à Idade do Bronze. Neste contexto, tratar-se-ia de uma ferramenta encabada, para usar em actividades agrícolas ou de marisqueiro, por exemplo, na escavação de solos lamacentos, na recolha de bivalves. Este tipo de machados agrícolas, fabricados por talhe e bojardagem da pedra, antepassados talvez do machado de pedra polida, encontram-se em quase todas as culturas do Neolítico Inicial da bacia do Mediterrâneo e do resto do Mundo. Em Marrocos, são conhecidas peças muito idênticas ao machado mirense, por vezes às centenas e até aos milhares, em sítios arqueológicas do Neolítico, sendo aí ligadas ao trabalho da terra e à extracção de recursos como o sal.

Machado Mirense de tipo clássico
Grauvaque
Alt. 11cm; Comp. 21,5cm; Esp. 2,8cm
Publ: Raposo e Penalva, 1987

Museu Nacional de Arqueolgia - Sala Bustorff. Entrada livre

27/06/2014

A peça do mês comentada - Máscara Dembo (Angola) Nº E 6882

No dia 21 de Junho, no Museu Nacional de Arqueologia, no âmbito do programa “Peça do mês comentada”, foi palco de uma interessante exposição, efetuada por Manuela Cantinho Investigadora da Sociedade de Geografia de Lisboa, acerca da Máscara Dembo atualmente presente na exposição temporária “Africa Reencontrada: o ritual e o sagrado em duas coleções públicas portuguesas”.


Incluída no acervo do Museu Nacional de Arqueologia, a Máscara Dembo (Angola) Nº E 6882 foi recolhida durante uma campanha militar portuguesa em 1913, ao dembado (região controlada por um Dembo=Chefe) de Cacula Cahenda, localizado a norte de Luanda. Nesta ação militar foram apreendidos muitos objetos, que foram oferecidos ao Museu da Sociedade de Geografia de Lisboa. A ficha de inventário do MNA apenas apresenta o nome do doador (Carlos Maia Pinto) que teria transmitido a José Leite de Vasconcelos a informação ali conservada “Máscara dos Dembos, Caculo Cahenda).





Na mesa, apresentando a conferencista Manuela Cantinho, António Carvalho, acompanhado por Ana Isabel Santos co-comissárias da exposição.
Segundo a investigação de Manuela Cantinho foi possível concluir que a máscara teria integrado o espólio recolhido pelo alferes David Magno, no forte de Santo António de Cacula Cahenda, que comandou a referida campanha militar de 1913.
Segundo Manuela Cantinho, este artefacto apresenta uma série de características muito raras. Destaca-se o facto de ser dos poucos exemplares que ainda exibem pintura (em meados do século XX apenas eram referidos em testemunhos orais) e de conservar ainda um fragmento de vidro espelhado numa das aberturas para os olhos. Esta particularidade, presente em estatuetas Ncongo, é até ao momento, única em máscaras faciais.




Pelas suas especificidades é possível que fosse uma máscara de um adivinho-curandeiro (quilamba), desconhecendo-se no entanto qual o traje que completaria esta máscara bem como a sua forma de utilização/posição.




A preleção sobre este artefacto terminou em plena exposição, uma cooperação MNA/IICT, comissariada por Ana Isabel Santos e Ana Cristina Martins, onde puderam ainda ser apreciados alguns pormenores e complementada a apresentação com algumas observações, numa viva troca de ideias entre os participantes deste evento.



24/06/2014

Peça do mês de Julho

O Museu Nacional de Arqueologia /MNA) possui um acervo de muitos milhares, na verdade centenas de milhares, de objectos. Provêm eles de intervenções arqueológicas programadas ou de achados fortuitos, tendo sido incorporados por iniciativa do próprio Museu ou por depósito ou por doação de investigadores e coleccionadores.
Todos os períodos cronológicos e culturais, e também todos os tipos de peças, desde a mais remota Pré-História até épocas recentes, neste caso com relevo para as peças etnográficas, estão representados no MNA. Às colecções portuguesas acrescentam-se as estrangeiras, igualmente de períodos e regiões muito diversificadas.
O MNA é ainda o museu português que possui no seu acervo a maior quantidade de peças classificadas como "tesouros nacionais".
Existe, pois, sempre motivo de descoberta nas colecções do Museu Nacional de Arqueologia e é esse o sentido da evocação que fazemos, em cada mês que passa.


PEÇA DO MÊS COMENTADA
Inscrição em honra do imperador Augusto Nº E 6329

A apresentar por José d'Encarnação, em 5 de Julho de 2014, às 15h




Bloco paralelipipédico, de granito moscovítico, com inscrição em honra do imperador Augusto. Foi descoberto por Borges de Figueiredo na Academia de Belas Artes de Lisboa; publicou-o na sua Revista Archeologica e Historica (II 1888 p. 69), com a indicação de que, «pelas informações que pude obter», fora encontrada em Alcácer do Sal. Serviu, seguramente, de lintel na entrada de um templo dedicado ao culto imperial.
A epígrafe reza o seguinte:

IMP(eratori) . CAESARI . DIVI . F(ilio) . AVGVSTO
PONTIFICI . MAXVMO . CO(n)S(uli) . XII
TRIB(unicia) . POTESTADE . XVIIII
VICANVS . BOVTI. F(ilius)
SACRVM
Ao imperador César Augusto, filho do Divino, pontífice máximo, cônsul pela 12ª vez, no 19º poder tribunício - Vicano, filho de Búcio. Consagrado.

Datada do período entre 1 de Julho do ano 5 e 30 de Junho do ano 4 a. C., a epígrafe revela como a figura do imperador foi, desde cedo, acolhida em Salacia envolta em religiosidade: seu pai, César, fora divinizado; como sumo pontífice, ele era o interlucotor privilegiado entre os deuses e o seu povo; e detinha a potestade, o poder nimbado de uma aura mística,,,
E toda essa atmosfera culmina na escolha, como remate, de um vocábulo impregnado de religiosidade: consagrado.
Por outro lado, o facto de o dedicante - porventura o notável indígena de quem partiu a iniciativa da construção - singelamente se identificar através de nomes comuns mais acentua essa fácil penetração da ideologia oficial.
No ano em que se comemora o bimilenário da morte do imperador, oportunamente se realça o valor documental desta epígrafe, nesse âmbito a mais significativa da Lusitânia romana.
José d'Encarnação

Museu Nacional de Arqueologia - Religiões da Lusitânia. Entrada Livre

17/06/2014

Peça do mês de Junho

O Museu Nacional de Arqueologia (MNA) possui um acervo de muitos milhares, na verdade centenas de milhares, de objectos. Provêm eles de intervenções arqueológicas programadas ou de achados fortuitos, tendo sido incorporados por iniciativa do próprio Museu ou por depósito ou por doação de investigadores e coleccionadores.
Todos os períodos cronológicos e culturais, e também todos os tipos de peças, desde a mais remota Pré-História até épocas recentes, neste caso com relevo para as peças etnográficas, estão representados no MNA. Às colecções portuguesas acrescentam-se as estrangeiras, igualmente de períodos e regiões muito diversificadas.
O MNA é ainda o museu português que possui no seu acervo a maior quantidade de peças classificadas como "tesouros nacionais".
Existe, pois, sempre motivo de descoberta nas colecções do Museu Nacional de Arqueologia e é esse o sentido da evocação que fazemos, em cada mês que passa.


A PEÇA DO MÊS COMENTADA

Máscara Dembo (Angola) Nº E 6882

A apresentar por Manuela Cantinho, em 21 de Junho de 2014 às 15h



O núcleo africano de âmbito etnográfico do MNA, embora modesto em termos quantitativos, integra alguns objectos de extrema importância antropológica.
A chamada "região dos Dembos", situada entre os rios Dande (Danje) e Bengo (Nzenza), sofreu ao longo dos séculos uma evidente influência económica, política e cultural do reino do Congo. Influência identitária que se projectou necessariamente na sua cultura material. Alguns Dembos (chefes) reclamavam a sua ascendência neste reino, prestando-lhe "vassalagem" durantes longos períodos.
Portugal manteve com vários dembados (chefaturas), que constituíam e controlavam esta vasta região a norte de Luanda, relações por vezes bastante tensas. Foi precisamente durante uma campanha militar portuguesa ao dembado de Cacula Cahenda (1913) que a máscara Dembo do MNA foi recolhida. De salientar que na mesma acção punitiva os militares apreenderam outros objectos que viriam a ser oferecidos ao Museu da Sociedade de Geografia de Lisboa.
A escassa literatura que existe sobre a etnografia dos Dembos das primeiras décadas do século XX refere a existência de máscaras faciais de madeira pintada, utilizadas pelos adivinhos-curandeiros. Cerca de sessenta anos depois, no âmbito dos levantamentos etnográficos realizados na região, já só foi possível obter meros testemunhos orais sobres estes objectos.
Neste sentido, entre as diferentes tipologias de máscaras utilizadas pelos Dembos, esta será aquela que mais curiosidade suscita dadas a sua raridade. Circunstância que nos permite atribuir ao exemplar do MNA um interesse reforçado.

Museu Nacional de Arqueologia - Salão Nobre. Entrada Livre

15/05/2014

Peça do mês de Maio

O Museu Nacional de Arqueologia (MNA) possui um acervo de muitos milhares, na verdade centenas de milhares, de objectos. Provêm eles de intervenções arqueológicas programadas ou de achados fortuitos, tendo sido incorporados por iniciativa do próprio Museu ou por depósito ou por doação de investigadores e coleccionadores. 

Todos os períodos cronológicos e culturais, e também todos os tipos de peças, desde a mais remota Pré-História até épocas recentes, neste caso com relevo para as peças etnográficas, estão representados no MNA. Às colecções portuguesas acrescentam-se as estrangeiras, igualmente de períodos e regiões muito diversificadas.

O MNA é ainda o museu português que possui no seu acervo a maior quantidade de peças classificadas como “tesouros nacionais”. 

Existe, pois, sempre motivo de descoberta nas colecções do Museu Nacional de Arqueologia e é esse o sentido da evocação que fazemos, em cada mês que passa.


A PEÇA DO MÊS COMENTADA

Pátera da Lameira Larga nº inv. AU 690

A apresentar por Carlos Fabião 1, em 17 de Maio de 20174, às 15h



Pátera de prata, com aplicações a ouro, de decoração figurativa repuxada, procedente da sepultura romana da Lameira Larga (Penamacor). 

A pátera pertence a um conjunto sepulcral datado dos fins do séc. I ou inícios do II d.C. encontrado ocasionalmente em 1907, no lugar de Lameira Larga, Aldeia do Bispo, Penamacor. 

A imagem apresenta o grande feito do herói grego Perseu: “o mais valente dos homens” (Ilíada, Canto XIV, 320). O herói decapitou, com a sua espada de bronze (harpé), a terrível Medusa, a única das três Gorgonas que era mortal. Nos pés apresenta as sandálias aladas, que lhe permitiram voar sobre o Oceano ao encontro da caverna das Gorgonas. Acompanha-o (e guia-o) Hermes, que ergue o manto que o tornava invisível e lhe permitiria fugir da fúria das imortais irmãs de Medusa. Para evitar o terrível olhar petrificante de Medusa, Perseu socorre-se de um estratagema. Com o auxílio de Atena, que ergue o seu escudo polido, servindo de espelho, Perseu pôde decapitar Medusa sem a encarar. 

A pátera apresenta alguns dos elementos da narrativa de Perseu, mostrando o momento em que Medusa já está decapitada, mas a sua cabeça não está ainda nas mãos do herói, que estende o braço na sua direcção: ou seja, o acto está em curso, não está ainda concluído. Trata-se, por isso, de uma raríssima representação desta narrativa (à época, era mais popular a imagem de Perseu triunfante, apresentado só, de espada na mão, em pose hierática erguendo a cabeça de Medusa). Neste caso, a representação do acto em curso, com muitos dos seus actores, confere a esta pátera um magnífico poder narrativo. 

Em época romana, estas narrativas dos feitos dos heróis gregos serviam de “histórias de proveito e exemplo” na educação dos jovens. Será provavelmente esta a razão que levou um habitante da Lusitânia a adquirir e conservar esta pátera de decoração figurativa, que acabou no interior da sua sepultura. 

Esta magnífica obra, realizada há quase dois mil anos, condensando uma narrativa heróica que lhe é pelo menos mil anos anterior, constitui eloquente exemplo de uma das matrizes culturais do Ocidente, e um inestimável tesouro da Arqueologia portuguesa.

1 Centro de Arqueologia (Uniarq) da Universidade de Lisboa. 1600-214 LISBOA.

12/04/2014

Peça do mês de Abril

O Museu Nacional de Arqueologia (MNA) possui um acervo de muitos milhares. na verdade centenas me milhares, de objectos. Provêm eles de intervenções arqueológicas programadas ou de achados fortuitos, tendo sido incorporados por iniciativa do próprio Museu ou por depósito ou por doação de investigadores e coleccionadores.
Todos os períodos cronológicos e culturais, e também todos os tipos de peças, desde a mais remota Pré-História até épocas recrentes, neste caso com relevo para as peças etnográficas, estão representados no MNA. Às colecções portuguesas acrescentam-se as estrangeiras, igualmente de períodos e regiões muito diversificadas.
O MNA é ainda o museu português que possui no seu acervo a maior quantidade de peças classificadas como "tesouros nacionais".

Existe, pois, sempre motivo de descoberta nas colecções do Museu Nacional de Arqueologia e é esse o sentido da evocação que fazemos, em cada peça do mês que passa.


PEÇA DO MÊS COMENTADA

Estatueta shabti de Wahibre-Sekhem, Sumo Sacredote de Letóplis

(Nº E 476)

A apresentar por Ronaldo Gurgel Pereira (1)

16 de Abril de 2014 às 18h


Estatueta shabti pertencente ao Museu Nacional de Arqueologia, em Lisboa. A peça integra a colecção de Antiguidades Egípcias do museu há décadas, nunca esteve exposta e jamais foi realizado um estudo a seu respeito, a não ser uma ficha de inventário. Trata-se de uma estatueta pertencente a um sumo-sacerdote de Letópolis, chamado Wahibre-Sekhen, que terá vivido durante alguma dinastia da Época Baixa, possivelmente uma das dominações persas.
Trata-se uma pequena figura em faiança vitrificada azul. A inscrição que lhe é dedicada atribui-se a um sacerdote wn-r (wen-ér), cargo de sumo sacerdote de Letópolis, capital do segundo nomo de Baixo Egipto. Uma vez que apenas um sacerdote wn-r podia existir por vez, a descoberta dessa figura implica uma importante contribuição para a prosopografia dos sumo-sacerdotes de Letópolis. E mais, como não há registo desse nome nas listas de sumo-sacerdotes de Letópolis conhecidos, essa figura shabti acaba por incluir um novo wn-r à lista de conhecidos. Que entretanto, precisará de mais dados para que seja situado cronologicamente de maneira apropriada.


1 Phd em Egiptologia, Universitat Basel

10/03/2014

Peça do mês de Março

O Museu Nacional de Arqueologia (MNA) possui um acervo de muitos milhares, na verdade centenas de milhares, de objectos. Provêm eles de intervenções arqueológicas programadas ou de achados fortuitos, tendo sido incorporados por iniciativa do próprio Museu ou por depósito ou por doação de investigadores e coleccionadores. Todos os períodos cronológicos e culturais, e também todos os tipos de peças, desde a mais remota Pré-História até épocas recentes, neste caso com relevo para as peças etnográficas, estão representados no MNA. Às colecções portuguesas acrescentam-se as estrangeiras, igualmente de períodos e regiões muito diversificadas. O MNA é ainda o museu português que possui no seu acervo a maior quantidade de peças classificadas como “tesouros nacionais”. Existe, pois, sempre motivo de descoberta nas colecções do Museu Nacional de Arqueologia e é esse o sentido da evocação que fazemos, em cada mês que passa.


PEÇA DO MÊS COMENTADA

O Conjunto de Oferendas Metálicas da


Sepultura da Quinta da Água Branca nºs invº Au 85 a 89 e 11 017




A apresentar por João Carlos de Senna-Martinez(1), em 15 de Março de 2014 às 15h O conjunto de oferendas metálicas da sepultura da Quinta da Água Branca (Lovelhe, Vila Nova de Cerveira, Viana de Castelo) constitui parte de um enterramento masculino em cista grande. Encontrado em 1906 e publicado por José Fortes na Portugalia em 1908, constitui um dos mais notáveis conjuntos do género atribuíveis ao Bronze Antigo (c.2250-1750 a.C.). 

A adaga ou espada curta, produzida em cobre arsenical (Cu, As), o diadema fabricado numa fina lâmina de ouro martelado e decorado com duas bandas de zig-zag limitadas por linhas paralelas executadas em repoussé, os dois anéis em espiral e os dois anéis de aro simples, fabricados a partir de arames de secção rectangular achatada, caracterizam este espólio de excepção certamente associado a uma personagem socialmente importante. 

A individualização do ritual funerário que constitui um dos eventos marcadores do início da Primeira Idade do Bronze (Bronze Antigo e Bronze Médio – c. 2250-1250 a.C.) assiste ao aparecimento de verdadeiros “enterramentos de excepção” expressão da nova ordem social em que sobressai o elemento andriarcal e o tema das primeiras armas metálicas (espadas curtas e punhais de lingueta, alabardas, pontas Palmela – Senna-Martinez, 2013) que juntamente com as primeiras jóias áureas constituem elementos destes pacotes funerários de prestígio, tal como no exemplo vertente, mas também em vários outros casos peninsulares (p.ex:Fuente Olmedo, Valladolid – Valls e Delibes de Castro, 1989; Gruta das Redondas, Carvalhal de Aljubarrota – Natividade, 1901). 

A escassez relativa de artefactos metálicos durante toda a Primeira Idade do Bronze, as condições da sua produção em âmbito doméstico, o consumo limitado e a sua associação primordial a enterramentos ou a “depósitos marcadores de território”, tudo se conjuga para que esta primeira metalurgia ibérica tenha um cariz não-tecnómico e associado primordialmente à produção de bens de prestígio ao serviço da ostentação de status das respectivas elites nascentes (Senna-Martinez, 2013)

 (1)Centro de Arqueologia (Uniarq) da Universidade de Lisboa. 1600-214 LISBOA. smartinez@fl.ul.pt

17/02/2014

A Peça do mês de Fevereiro

O Museu Nacional de Arqueologia (MNA) possui um acervo de muitos milhares, na verdade centenas de milhar de objectos. Provêm eles de intervenções arqueológicas programadas ou de achados fortuitos, tendo sido incorporados por iniciativa do pr´pprio Museu ou por depósito ou por doação de investigadores e coleccionadores.
Todos os períodos cronológicos e culturais, e também todos os tipos de peças, desde a mais remota Pré-História, até épocas recentes, neste caso com relevo para as peças etnográficas, estão representados no MNA. Às colecções portuguesas acrescentam-se as estrangeiras, igualmente de períodos e regiões muito diversificadas.
O MNA é ainda o museu português que possui no seu acervo a maior quantidade de peças classificadas como "tesouros nacionais".
Existe, pois, sempre motivo de descoberta nas colecções do Museu Nacional de Arqueologia e é esse o sentido da evocação que fazemos, em cada mês que passa.


PEÇA DO MÊS
Barco votivo, nº inv. E 139 (cat. 236) - Egipto antigo

A apresentar por Telo Canhão, em 22 de Fevereiro de 2014, às 15h



O hábito de enterrar os mortos na companhia de um enxoval funerário no antigo Egipto, tinha como finalidade a utilização de todo esse equipamento no Além. Os Egípcios acreditavam que era possível aos seus mortos viverem uma outra vida depois da morte, e que todos os objectos com que eram fechados nos seus túmulos desempenhariam exactamente a mesma função que tinham tido durante a sua existência terrena, para lhes facultar uma permanência de alegria e abundância na Duat, o outro mundo. Por isso se chama a este barco nilótico «barco votivo», pois foi deixado num túmulo por motivos rituais para obter o favor de forças sobrenaturais em que os Egípcios acreditavam, como a heka, a força mágica considerada criativa e pertencente ao demiurgo, que a espalhou por toda a criação. Confiando nelas, supunha-se que ganhasse vida e servisse o defunto no Sekhet-Iaru, o paraíso egípcio, na plenitude da sua funcionalidade, para que nada lhe faltasse.
Mas este pequeno barco de madeira, com 73 cm de comprimento e 37 cm de largura, e os seus oito ocupantes, simboliza uma outra realidade incontornável: o Nilo era a «auto-estrada» do Egipto e por ela todos circulavam na companhia dos mais variados carregamentos. De tal forma que isso deixou marcas indeléveis na escrita egípcia e na maneira de ser dos Egípcios, para além de determinar o óbvio: uma infinidade de diferentes embarcações! Os humanos com as sua cargas, umas vivas outras não, umas vezes em missões de paz outras nem por isso, e os deuses, todos eles se deslocavam no Egipto de barco que, no caso dos das divindades, alguns chegavam a assumir nomes próprios.
Características da construção naútica, algumas que permitem distinguir os barcos nilóticos dos barcos que navegavam nos mares Vermelho e Mediterrâneo, formas de propulsão na água, tipos e funções das embarcações, equipagens e outras características, servirão para desvendar um pouco do mundo maravilhoso que era a navegação no Egipto, e não só no Nilo, como enquadramento à peça do mês aqui proposta.
Feito este envolvimento, será então abordado o belo barco do Museu Nacional de Arqueologia, o «E 139», juntando-se às informações existentes algumas ideias novas, sendo dadas uma série de explicações sobre as características da embarcação e seu equipamento, sobre a fisionomia, o posicionamento e a função das figuras, bem como sobre a provável origem da embarcação e sobre o tipo de madeira de que é feita.


11/12/2013

Peça do Mês de Dezembro

A peça do mês

O Museu Nacional de Arqueologia (MNA) possui um acervo de muitos milhares, na verdade centenas de milhares, de objectos. Provêm eles de intervenções arqueológicas programadas ou de achados fortuitos, tendo sido incorporados por iniciativa do próprio Museu ou por depósito ou por doação de investigadores e coleccionadores.

Todos os períodos cronológicos e culturais, e também todos os tipos de peças, desde a mais remota Pré-História até épocas recentes, neste caso com relevo para as peças etnográficas, estão representados no MNA. Às colecções portuguesas acrescentam-se as estrangeiras, igualmente de períodos e regiões muito diversificadas.

O MNA é ainda o museu português que possui no seu acervo a maior quantidade de peças classificadas como “tesouros nacionais”.

Existe, pois, sempre motivo de descoberta nas colecções do Museu Nacional de Arqueologia e é esse o sentido da evocação que fazemos, em cada mês que passa, e renovadamente no ano de 2013, em que o MNA celebra o seu 120º aniversário de fundação.


A Peça do Mês de Dezembro
A apresentar por Nuno Simões Rodrigues, em 14 de Dezembro de 2013 às 15h

A MULHER DE MILREU



A peça registada no inventário do MNA com o número 18208 (= 994.6.3) é conhecida como a «cabeça de Milreu» ou simplesmente «retrato de mulher». Trata-se de uma peça de escultura romana, uma cabeça feminina em mármore branco, datada do final do século I, inícios do século II d.C. A escultura foi encontrada por Estácio da Veiga nas termas de Milreu, perto de Faro, e depois de ter incorporado o acervo do museu da capital algarvia transitou para o Museu Nacional de Arqueologia.
            Logo nos primeiros trabalhos publicados sobre esta peça, foi destacada a beleza da mesma, bem como a sua especificidade, derivada sobretudo do penteado em «ninho de vespa», tal como lhe chama a bibliografia portuguesa», ou em «topete», como o classificam os estudos anglo-saxónicos, germânicos e franceses. Com efeito, a «mulher de Milreu» ostenta um penteado dividido em duas secções, em que, numa delas, o cabelo sobressai na parte frontal da cabeça, na forma de um diadema constituído por três fileiras de caracóis sobrepostos, enquanto a parte de trás se forma com uma «mecha de cabelo enroscado em carrapito sobre a nuca, descobrindo as orelhas» Os anéis obtinham-se com recurso a uma vara de encaracolar e mantidos com uma aplicação de cera de abelha. O topete era mantido no seu lugar com o auxílio de uma fita de couro na parte de trás.
            Segundo o estudo de J. L. de Matos, a parte que resta deveria fazer parte de um busto, representando uma personagem anónima. Na ficha que se inclui no catálogo da exposição «Religiões da Lusitânia», Cardim Ribeiro nota ainda que esta peça é a evidência da forma como as elites municipais da Lusitânia meridional se relacionavam, nos séculos I e II d.C., com as elites imperiais, adoptando tendências e seguindo modas, buscando dessa forma o prestígio, pelo facto de as mesmas transmitirem a ideia de proximidade ao poder.
            Na verdade, a representação que hoje podemos ver no MNA corresponde a um figurino razoavelmente presente em vários museus europeus. Os penteados com topete, particularmente notórios e conhecidos no quadro cultural romano, têm sido associados sobretudo ao período flaviano, mas teriam sido usados até pelos menos aos anos 20 do século II d.C. (épocas trajânica e adriânica).
            Cardim Ribeiro caracteriza o retrato como a figuração de uma jovem mulher que exibe um penteado típico da época tardo-flávia, «influência de Júlia, filha de Tito e esposa de Domiciano». Com efeito, alguns autores afirmam que a moda destes penteados teria sido iniciada por membros da casa imperial, designadamente Júlia Titi (65-91 d.C.) e Domícia Longina (?-140 d.C.), respectivamente a filha de Tito (39-81 d.C.) e a mulher de Domiciano (51-96 d.C.). Daí que, partindo dos princípios do «retrato verista» romano, a esmagadora maioria das figuras assim representadas fosse identificada com as duas princesas imperiais. Outros estudos, alguns mais recentes, porém, têm concluído que algumas das representações até aqui identificadas como as mulheres da família imperial serão, na verdade, retratos privados e anónimos.

19/11/2013

Peça do mês de Novembro


O Museu Nacional de Arqueologia (MNA) possui um acervo de muitos milhares, na verdade centenas de milhares, de objectos. Provêm eles de intervenções arqueológicas programadas ou de achados fortuitos, tendo sido incorporados por iniciativa do próprio Museu ou por depósito ou por doação de investigadores e coleccionadores.
Todos os períodos cronológicos e culturais, e também todos os tipos de peças, desde a mais remota Pré-História até épocas recentes, neste caso com relevo para as peças etnográficas, estão representados no MNA. Às colecções portuguesas acrescentam-se as estrangeiras, igualmente de períodos e regiões muito diversificadas.
O MNA é ainda o museu português que possui no seu acervo a maior quantidade de peças classificadas como “tesouros nacionais”.
Existe, pois, sempre motivo de descoberta nas colecções do Museu Nacional de Arqueologia e é esse o sentido da evocação que fazemos, em cada mês que passa, e renovadamente no ano de 2013, em que o MNA celebra o seu 120º aniversário de fundação.

A peça do mês

Serpente solarizada, nº inv. E 191 (cat. 73) – Egipto antigo


A apresentar por José Sales, em 23 de Novembro  de 2013 às 15h




As representações serpentiformes e os cultos ofiolátricos são fenómenos frequentes nas terras onde se desenvolveram as civilizações do Médio Oriente antigo. Como animal que se esconde na terra e que muda de pele, é habitual a serpente ser associada nessas civilizações à actividade agrária, à fertilidade, à regeneração e à imortalidade, assumindo um lugar de relevo nas suas crenças, mitos, práticas de magia e encantamentos.
No Egipto antigo, onde se distinguiam 37 tipos de serpentes, a serpente (hefau) não era mais do que a materialização da incarnação de um poder sobre-humano com força destruidora, sendo também símbolo de uma ideia de poder, imortal, do mal. A serpente era, por isso, um signo polivalente que se socorria de uma linguagem simbólica, mais ou menos complexa, para exprimir as suas várias facetas.
Uma das vertentes mais exploradas no âmbito da mitologia egípcia explora a sua relação com o Sol, sendo a mordedura do animal associada à queimadura solar. Resultado de esta associação produzida pela cosmovisão egípcia, a serpente é um ornamento profiláctico ao serviço dos deuses, do faraó e das próprias construções arquitectónicas. A serpente é mesmo o animal mais representado na antiga arte egípcia.
São numerosos os exemplos de divindades-serpente que se podem encontrar na mitologia egípcia, zoomorfas ou bimórficas (corpo humano com cabeça animal ou mesmo corpo animal com cabeça humana): Uadjit, Meretseger, Renenutet, Hetepes-Sekhus, Upset, Apopis, Neheb-Kau, Agathodaimon, as deusas com cabeça de serpente da Ogdóade hermopolitana (Nunet, Hehet, Kuket e Amonet), etc.
A serpente «em posição de alerta» (em egípcio iaret; em latim uraeus), excitada, pronta a desferir o seu ataque, com ou sem disco solar, constitui um motivo iconográfico-artístico com inúmeras utilizações e representações, praticamente desde o início da história egípcia até ao período romano.
O Além egípcio, tal como nos é apresentado pelas decorações dos túmulos do Vale dos Reis, estava repleto de serpentes, algumas gigantescas, com braços, pernas, cabeças humanas, asas, cuspindo «fogo».
A uraeus solarizada do MNA, de pescoço tumefacto, em madeira pintada, com 16 cm de altura por 4,3 cm de largura, datada dos séculos XI-VIII a.C.  (III Período Intermediário), apresenta as suas cores já muito esbatidas. No entanto, a simbologia das cores e dos materiais constitui também um elemento de destaque no âmbito da dimensão simbólica que este animal-signo apresentava no antigo Egipto. Esta vertente é particularmente importante na joalharia e nos relevos pintados.

15/10/2013

Peça do mês de Outubro

O Museu Nacional de Arqueologia (MNA) possui um acervo de muitos milhares, na verdade centenas de milhares, de objectos. Provêm eles de intervenções arqueológicas programadas ou de achados fortuitos, tendo sido incorporados por iniciativa do próprio Museu ou por depósito ou por doação de investigadores e coleccionadores.

Todos os períodos cronológicos e culturais, e também todos os tipos de peças, desde a mais remota Pré-História até épocas recentes, neste caso com relevo para as peças etnográficas, estão representados no MNA. Às colecções portuguesas acrescentam-se as estrangeiras, igualmente de períodos e regiões muito diversificadas.

O MNA é ainda o museu português que possui no seu acervo a maior quantidade de peças classificadas como “tesouros nacionais”.

Existe, pois, sempre motivo de descoberta nas colecções do Museu Nacional de Arqueologia e é esse o sentido da evocação que fazemos, em cada mês que passa, e renovadamente no ano de 2013, em que o MNA celebra o seu 120º aniversário de fundação.

A Peça do Mês de Outubro
Apresentação por João Almeida e Julião Sarmento, em 19 de Outubro de 2013 às 15h
CABEÇA DE ALFINETE COM REPRESENTAÇÃO FEMININA (Nº 2011.61.1)

TRÓIA – GRÂNDOLA, SETÚBAL.

Entre as décadas de 40 e 60 do séc. XX foi escavada em Tróia uma importante necrópole romana cuja cronologia de utilização compreende grosso modo, os séculos I e VI d.C.
Durante estes trabalhos arqueológicos, sob a direcção do antigo Director do MNA, Manuel Heleno Júnior, foi descoberta junto de uma destas estruturas funerárias uma pequena figura feminina de osso que conserva ainda o torso e parte dos membros inferiores. Esta pequena peça deverá ter sido o motivo central de um alfinete de cabelo embora não seja de descartar a hipótese de se tratar de um elemento decorativo de um instrumento de fiação, como aliás se conhece outro exemplar de Tróia. A relação com outros materiais perfeitamente datáveis, a presença de vestígios de cinzas no local descrito e a sua representação indicam uma datação em torno do séc. I d.C. Os traços desta pequena escultura, talhada com grande precisão e realismo, aproximam-na das representações coevas de Vénus, cópias dos modelos da Afrodite grega muito populares na época.






Outros enterramentos em Tróia sugerem uma relação entre o género feminino sepultado e alguns objectos relacionados com esta divindade, cujo simbolismo extravasa largamente os conceitos associados de beleza e erotismo.

Esta peça, que se encontrava “adormecida” nas reservas do MNA até há poucos anos, foi “acordada” pela investigação arqueológica de João Almeida.
No ano em que se assinalam os 40 anos de carreira de Julião Sarmento - um dos nossos artistas plásticos com maior projecção internacional e cuja obra mergulha frequentemente no universo feminino - propõe-se um diálogo entre a perspectiva que um arqueólogo e um artista têm perante o mesmo objecto.
Poderemos falar em arte e beleza universal? Terá esta magnifica figura tido há dois mil anos o mesmo impacto visual que tem nos dias de hoje?

26/09/2013

Peça do mês de Setembro


O Museu Nacional de Arqueologia (MNA) possui um acervo de muitos milhares, na verdade centenas de milhares, de objectos. Provêm eles de intervenções arqueológicas programadas ou de achados fortuitos, tendo sido incorporados por iniciativa do próprio Museu ou por depósito ou por doação de investigadores e coleccionadores.
Todos os períodos cronológicos e culturais, e também todos os tipos de peças, desde a mais remota Pré-História até épocas recentes, neste caso com relevo para as peças etnográficas, estão representados no MNA. Às colecções portuguesas acrescentam-se as estrangeiras, igualmente de períodos e regiões muito diversificadas.
O MNA é ainda o museu português que possui no seu acervo a maior quantidade de peças classificadas como “tesouros nacionais”.
Existe, pois, sempre motivo de descoberta nas colecções do Museu Nacional de Arqueologia e é esse o sentido da evocação que fazemos, em cada mês que passa, e renovadamente no ano de 2013, em que o MNA celebra o seu 120º aniversário de fundação.



A Peça do Mês de Setembro
A apresentar por Vítor Gonçalves e Carlos Prates, em 28 de Setembro de 2013 às 15h
PLACAS DE XISTO, PLACAS DE GRÉS, DIFERENTES SUPORTES, DIFERENTES REALIDADES? A PLACA DE GRÉS DA ANTA DO ESPADANAL (Nº 989.27.1), ESTREMOZ 

Em finais do 4º milénio antes da nossa Era, e durante a primeira metade do 3º, as figurações dos Deuses têm vários suportes. O barro, o osso, as pedras verdes, o calcário, o xisto, o serpentinito, o grés...




Mas o material usado para o suporte de essas imagens é mesmo importante?
Bem, deveríamos dizer que a Deusa e o Jovem Deus, seu filho, fazem aparições distintas, por vezes com enquadramentos temporais diferentes e aparecem representados sobre vários suportes. A Deusa em todos eles, menos, até agora, em pedras verdes. O Jovem Deus sobretudo em xisto e osso. No primeiro caso, associado ou não à Deusa, no segundo, sozinho.
As placas de xisto gravadas são de todos os artefactos ideotécnicos os mais fortemente identitários. Os motivos simbólicos das cerâmicas do 3º milénio a.n.e. aparecem em todo o Sul Peninsular com uma impressionante regularidade e, mesmo, similitude. Mas as placas de xisto gravadas são tipicamente «portuguesas», com alguns exemplares em Huelva, outros em Badajoz e alguns poucos fragmentos em Salamanca, prováveis resultados da circulação a longa distância dos pastores do interior peninsular.

Sobretudo pelas escavações de Leite de Vasconcellos e, logo a seguir, de Manuel Heleno, muitas centenas de placas deram entrada no Museu Nacional de Arqueologia, como hoje é chamado. E, com elas, umas outras, de grés, lisas ou com motivos gravados. As lisas foram consideradas como afiadores ou polidores, devido ao desgaste central que apresentavam, mas também porque os trabalhadores alentejanos contratados para as escavações adoravam afiar as suas navalhas no grés, óptimo para esse efeito. Apanhei alguns a tentar fazê-lo nos Penedos de S. Miguel. No Alto Algarve Oriental, onde não há grés, faziam o mesmo nas mós manuais de grauvaque, se não os detivéssemos a tempo... Para estas placas há ainda registos onde são designadas por amoladeiras.

As placas de grés gravadas apresentam vários elementos simbólicos, mas, num grupo significativo delas, são mesmo de figurações antropomórficas (ou melhor: teomórficas) que se trata. Agostinho Isidoro publicou algumas, do Crato, eu próprio, ainda que sumariamente, as duas notáveis placas da Anta dos Penedos de S. Miguel, também do Crato, e Jorge de Oliveira divulgou recentemente uma nova série, da Coudelaria de Alter.
Quais as questões que estas placas levantam e em que são assimiláveis às de xisto?

O xisto tem uma fractura laminar, o grés não. O xisto suporta excelentes gravações, assim o artesão estivesse à altura da tarefa. O grés pode ser delicadamente esculpido em baixo relevo. Mas estas características dos suportes não afectam a situação nodal: os componentes da gramática decorativa são aparentemente similares. Olhados de perto, porém, ganham diferenças e perdem similitudes. Quanto a mim, as placas de grés são posteriores às primeiras placas de xisto e aproximam-se das figurações adaptadas da Deusa sobre xisto, que encontramos entre 2900 e 2500  a.n.e., em intervalo de tempo de rádio carbono. Os tempos dos primeiros arqueometalurgistas do cobre a entrar no Ocidente peninsular...

A placa da Anta do Espadanal inclui componentes específicos de grande interesse, sendo uma placa grande, bem esculpida. Como tema abstracto, apresenta, no verso e nos bordos laterais, cinco linhas ziguezagueantes dispostas na horizontal. Mas o que impressiona imediatamente são os Olhos e o conjunto dos braços simétricos com grandes mãos que apresenta.

Os Olhos são perfurações circulares profundas, centradas em depressões cupuliformes, e não são radiantes. Acompanhando a sua segunda metade, e prolongando-se até aos bordos da placa, foram esculpidos em relevo dois pares de duas pinturas ou tatuagens faciais, que normalmente acompanham as figurações da Deusa.
As mãos de dimensões exageradas são uma forma metafórica de representar o poder do indivíduo, Chefe ou Divindade, veja-se o caso de Vale Camonica, nos Alpes italianos. Neste caso, os braços flectidos parecem suster o ventre, tal como na Anta dos Penedos de S. Miguel, onde este estava ainda salpicado de ocre vermelho.

A placa, que se fragmentou durante a escavação conduzida por Manuel Heleno, foi, em época incerta, admiravelmente restaurada.


                                                                                              Victor S. Gonçalves